Quem é Pink Floyd na fila do pão? Luiz Gonzaga e o ópera forró

Calma leitor, nenhum jornalista ou historiador que se preze diria que essa frase é verdadeira. Não há qualquer indício que prove que o Rei do Baião já tenha pensado ou dito algo parecido. Mas afinal, o que quero dizer com ela então? Este texto chama atenção para um aspecto ainda não sublinhando do forró, que o conecta aos vinis e shows de rock dos anos 1970 e as casas de ópera, um gênero criado ainda século XII. Continue lendo que você vai entender melhor. Para começar, vamos fazer uma consulta breve a Wikipédia. Segundo ela: Ópera (em italiano: significa obra, em latim, plural de “opus”, obra) é um gênero artístico teatral que consiste em um drama encenado acompanhada de música, ou seja, composição dramática em que se combinam música instrumental e canto, com presença ou não de diálogo falado. […] O drama é apresentado utilizando os elementos típicos do teatro, tais como cenografia, vestuários e atuação. No entanto, a letra da ópera (conhecida como libreto) é normalmente cantada em lugar de ser falada. A ópera é também o casamento perfeito entre a música e o teatro. (Link para o verbete completo) Mas o que é que Luiz Gonzaga e o Pink Floyd têm haver com isso? Mesmo que você não goste, ou nem conheça qualquer coisa sobre rock, já deve ter ouvido a música Another Brick in The Wall Part II do Pink Floyd. Ela é famosa por causa do coral de crianças, aqui acolá toca no rádio ou o YouTube sugere se você estiver escutando clássicos do estilo.

A música faz parte do álbum duplo The Wall, lançado pelo grupo em 1979 e é um dos seus grandes sucessos de vendas, downloads e opinião da imprensa especializada. Esse álbum tem uma especificidade, suas 26 músicas contam a história de um personagem chamado Pink. Repletas de elementos teatrais, as composições abordam as vivências dele desde a infância até se tornar adulto. Ao longo das músicas você acompanha a superproteção da mãe, a perda do pai na Segunda Guerra, os problemas e humilhações na escola, as questões da adolescência e até o casamento de Pink.

Este tipo de álbum é classificado como um ópera rock, um tipo dentro do estilo em que é contada uma história com início, meio e fim ao longo das músicas. Há uma unidade de temas, gêneros, modos de narrar que conectam as composições de uma forma que o álbum de rock apresenta uma história conexa. Entre o final dos anos 1960 e início dos anos 1980, diversas bandas lançaram álbuns de ópera rock, dois bem conhecidos são Tommy (1969) do The Who e 2112 (1976) do Rush.

Você deve estar se perguntando, onde é que o forró entra nesta história? O rock não foi o único gênero musical ao longo do tempo a se apropriar de elementos da ópera e da teatralidade, ela é perceptível na música de artistas de épocas e estilos variados como o grupo de rap americano The Roots e o pernambucano Cordel do Fogo Encantado.

Por falar em artistas pernambucanos, anos antes de Roger Waters começar a escrever as letras do famoso The Wall, Luiz Gonzaga já tinha lançado mais de 21 discos. No início dos anos 1970, ele era um veterano com mais de 30 anos de carreira já contava com diversos sucessos, mas um tanto esquecido pela imprensa e pelo público carioca.

Só que em 1972 o jogo virou, Gonzagão foi acompanhado em uma série especial de shows por uma banda de peso. Ela incluiu músicos fundamentais para música brasileira: Renato Piau (guitarra), Dominguinhos (sanfona), Porfírio Costa (baixo) e outros. O espetáculo chamado Luiz Gonzaga Volta para Curtir entrou em cartaz em março no prestigioso Teatro Tereza Rachel em Copacabana. Teve direção e roteiro de Jorge Salomão e Luciano Capinam, além de ambientação de outro artista de vanguarda, Oscar Ramos.

O que resultou disso? Bem, um show antológico em que o experiente Luiz Gonzaga foi acompanhado por uma banda jovem e moderna, cheia de gás e versada em estilos variados como o jazz fusion e o samba. Uma arquitetura musical que valorizou, amplificou e tornou mais complexo o forró do Gonzagão. O registro que temos a uma gravação de 15 músicas, lançada posteriormente em CD. Nelas, Luiz Gonzaga enlaça a sua própria história entre as décadas de 1910 e 1970 com a história do Brasil.

É nesse ponto que cruzamos forró com ópera, porque mais do uma simples narrativa, esse espetáculo reuniu elementos de teatro, ópera e forró. Conectou elementos variados a partir da contação de história: a Revolução de 1930, a migração nordestina para o Sudeste, conjuntura política da Ditadura Militar, contradições e transformações socioeconômicas variadas, a vida na periferia do Rio de Janeiro , a tradição oral, os causos e o cordel (de Padre Cícero a Lampião, passando pelo São João). Tudo isso sem perder o ritmo, embalando uma música na outra e indo e voltando no tempo.

Há diversas questões sobre memória, narrativa e cultura popular que um estudioso faria sobre os recortes e histórias apresentados pelo Rei do Baião, mas nesta altura é melhor deixar você leitor escutar, se deliciar e tirar suas próprias conclusões.

Seria o álbum Luiz Gonzaga -Volta para curtir o primeiro ópera forró, anos antes do famoso The Wall do Pink Floyd? Não sei, certo é que esse é um dos grandes discos da música brasileira e merece ser escutado por todos. Afinal, quem é Pink no jogo do bicho se você pode conhecer Gonzagão e a história brasileira pelos caminhos do próprio Rei do Baião?!

(Caso o vídeo do Youtube com a música não apareça, clique aqui) Para saber mais: Postagem do blog Forró em Vinil sobre este álbum Verbete de Luiz Gonzaga na Wikipédia Trecho do livro “O fole roncou – uma história do forró” de Carlos Marcelo sobre este espetáculo de Luiz Gonzaga.

Revisão: Maria José/Arthur Duarte (Twitter)