Cidades Invisíveis
É difícil pensar em um símbolo do domínio humano sobre o planeta Terra mais forte do que as cidades. Sejam vilarejos ou metrópoles com milhões de habitantes, elas estão espalhadas por todo globo e em expansão constante, engolindo florestas, desertos, rios, campos, tribos e até pedaços de mar nesse processo. É também difícil imaginar um livrinho tão curto (pouco mais de 150 páginas), tão criativo e cheio de significados para tratar das ocupações urbanas do que As Cidades Invisíveis (1972) de Italo Calvino (1923-1985), um dos mais importantes escritores italianos do século XX.

Marco Polo descreve uma ponte, pedra por pedra. – Mas qual é a pedra que sustenta a ponte? –pergunta Kublai Khan – A ponte não é sustentada por esta ou aquela pedra –responde Marco-, mas pela curva do arco que estas formam. Kublai Khan permanece em silêncio, refletindo. Depois acrescenta:-Por que falar das pedras? Só o arco me interessa. Polo responde: – Sem pedras o arco não existe. Trecho de Cidades Invisíveis de Italo Calvino.
No livro, Calvino imagina pequenos diálogos – salpicados de filosofia e boa prosa – entre o viajante veneziano Marco Polo e Kublai Kan, imperador mongol, que viveram na virada do século XIV. Na obra, há também várias descrições de cidades – de um parágrafo a pouco mais de uma pagina cada – que teriam sido feitas por Marco Polo ao soberano tártaro. Saltando no tempo e espaço, entre o começo do mundo e o amanhã, Italo Calvino traça as cidades com palavras simples e reflexões profundas sobre os mais diversos assuntos: geometria, arte, memória, espaço, magia, amor, e outros.

Quando visitei Praga, a capital da República Checa, em 2016 fiquei encantado. Ela tem mais de oitocentos anos como capital, mas é ao mesmo tempo velha e nova. Se misturam construções medievais com prédios de alta tecnologia, monumentos de reis e de revoluções frustradas mais de quatro séculos depois. Uma urbe ocupada por povos das mais diversas partes do mundo e que estão todo tempo em movimento nos modernos metros e em velhos bondes. Todos os dias em que estive lá, lembrei muitas vezes das Cidades Invisíveis de Italo Calvino e suas poderosas reflexões sobre o mundo urbano.
A cidade se embebe como uma esponja dessa onda que reflui das recordações e se dilata. Uma descrição de Zaíra como é atualmente deveria conter todo o passado de Zaíra. Mas a cidade não conta o seu passado, ela o contém como as linhas da mão, escrito nos ângulos das ruas, nas grades das janelas, nos corrimãos das escadas, nas antenas dos para-raios, nos mastros das bandeiras, cada segmento riscado por arranhões, serradelas, entalhes, esfoladuras Trecho de Cidades Invisíveis de Italo Calvino.Para quem ainda não conhece, vale muito como uma leitura ao mesmo tempo prazerosa e reflexiva. Para quem já leu, sempre é tempo de reler Calvino e sua imaginação sentimental do mundo urbano que nos cerca. Para dar um gostinho dessa leitura, vale escutar “Lá vem a Cidade” uma música de Lenine e Bráulio Tavares lançada em 2008 no álbum Labiata.