Camelos e dromedários: línguas, linguagens e programação
Na Torre de Babel, formada pelas inúmeras línguas utilizadas no mundo todo, há uma questão que não foi prevista pelos antigos escribas que no Gênesis tratam do mito de uma construção feita para conseguir alcançar o céu. E não estou falando sobre os novos edifícios na China e Oriente Médio que efetivamente podem tocar e ultrapassar o véu das nuvens em direção ao firmamento, como o Burj Khalifa (em Dubai) e os seus 828 metros divididos em 160 andares. Da Antiguidade até o presente surgiram muitos prédios, mas também inúmeras línguas e tantas linguagens que talvez fosse preciso não apenas uma, mas sim duas torres de Babel irmãs, mas não gêmeas. Uma confusão que dá um nó nas ideias quando se pensa o que é e para que servem as línguas e linguagens.

Como já estávamos mesmo entre o calor e a areia do deserto nos Emirados Árabes, vamos nos valer da ajuda dos dromedários para clarificar nossa visão sobre esse tema. Um dromedário é um simpático animal de pelo curto com quatro patas e uma corcova, é alto e resistente a sede. Ele pode correr numa velocidade de até 16 km/h por horas a fio. Todo mundo já viu um filme ou imagem de algum atravessando o deserto do Saara. Ele tem um primo distante (mora na Ásia Central, a mais de 4 mil quilômetros) chamado camelo, que é mais baixo e tem um pelo longo que cobre duas corcovas, ele é bem mais forte (carrega muito peso) e lento (chega a no máximo 5 km/h). Apesar da diferença de nome, aparência física e habitat, muita gente confunde esses dois animais ou então acham que são a mesma coisa. Em parte porque eles tem um ancestral em comum que os legou algumas características compartilhadas, como a resistência a falta de água. Esse problema acontece também com as línguas e a linguagens.
Vivendo com uma professora intérprete de Libras não é incomum ver ela explicando a alguém que aquilo que ela ela ensina e interpreta é uma língua de sinais, não uma linguagem. Ai o interlocutor (estudante, dona de casa, médico, professor, etc) geralmente questiona: Mas não é a mesma coisa? Ai que tá, não é. Libras significa Língua Brasileira de Sinais, assim como o francês e o chinês, é uma língua. Apesar das línguas e linguagens serem elementos necessários para a comunicação humana, elas não são a mesma coisa.
Uma língua é um conjunto organizado de elementos que tem regras próprias e que permite comunicação. Nesse sentido a Libras tem suas próprias diretrizes e é uma língua visual espacial, ela utiliza sinais com as mãos, expressões faciais e movimentos do corpo. As línguas são tão variadas e complexas que daria para formar uma verdadeira Torre de Babel com elas. Mas então, o que é uma linguagem? É expressão do pensamento, corresponde a capacidade humana de aprender e usar as línguas e outros sistemas complexos de sinais para se comunicar. Nesse sentido, para se comunicar numa língua, como o português ou inglês, você pode fazer uso de linguagens variadas como a visual, a oral e a escrita. As linguagens vão para além das línguas – estão também no mundo das artes, por exemplo – elas são muitas e também se transformam ao longo do tempo. Elas poderiam formar uma segunda Torre de Babel, irmã da primeira, mas, como vimos, não gêmea.

E onde entra programação de computadores nisso? Nós seres humanos não utilizamos a língua materna dos computadores, também conhecida como código de máquina. Ela se trata de uma sequencia de bites que formam instruções a serem executadas pelo processador. Nós nos valemos de diversas linguagens de programação (Java, Python, Ruby, etc.) que a partir de certas regras próprias criam códigos fontes que são depois compilados e/ou interpretados para compreensão do computador. Há formas diversas de classificar as linguagens de programação, uma delas é o nível de abstração. Nesse sentido, existem as linguagens de baixo nível (mais próximas do código de máquina – exemplo: Assembly ) e de alto nível de abstração (mais próximas da linguagem humana, como as citadas anteriormente).
Bem, todos nós nos valemos das línguas e linguagens a todo momento e cada vez mais as máquinas (sejam notebooks, celulares, etc) ocupam um espaço maior em nossas vidas. São tão ou mais úteis do que os dromedários para nos levar de um lugar a outro, de uma página a outra na rede. Agora você já sabe que assim como camelos e dromedários, as línguas e linguagens (sejam humanas ou computacionais) estão vinculadas por uma mesma raiz, mas, de modo algum são a mesma coisa. Por isso, quando alguém se confundir com essas palavras, você já sabe como desembaralhar as ideias.
Quer saber mais sobre camelos e dromedários, língua e linguagem ou linguagens de programação?
- https://super.abril.com.br/mundo-estranho/qual-a-diferenca-entre-camelo-e-dromedario/
- https://novaescola.org.br/conteudo/257/qual-a-diferenca-entre-lingua-e-linguagem
- https://pt.wikipedia.org/wiki/Linguagem_de_programação
Revisão: Maria José Dicas e ideias: Erielma / Izaac / Brenno (Twitter) / Gustavo Mor (Twitter)
